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O eco do silêncio
Era uma tarde de 1938. Fazia sol e era uma quinta-feira. Jueves, como falamos em espanhol. Esse texto será lido, mas nunca por mim contado pois falar é algo que nos foi tirado assim que nossos pés pisaram as areias de Ávila, comunidade autônoma de Leão e Castela. Morei em um convento da ordem Cisterciense, a mais fechada e rigorosa do mundo. Além do voto de pobreza e castidade, nos é agregado um voto de silêncio que não pode ser rompido. Meu destino cruzou com as freiras Cisterciences quando eu tinha apenas 5 anos e meu pai não sabia o que fazer com mais uma filha mulher: era mais um gasto, mais um dote a ser pago, logo, fui doada ao convento.
Naquela tarde, a minha função era cuidar da enfermaria, o único lugar além da sala da madre superiora onde pouquíssimas palavras são pronunciadas. Fora isso, o silêncio chega a ser perturbador, uma coisa incômoda, abusiva, invasora dos seus ouvidos e do seu espírito, mais feroz do que o mais alto e forte dos barulhos. Mas naquele dia, o silêncio foi quebrado. Fora dos portões ouviu-se, ao longe, o barulho de homens e cavalos, que aos poucos foi aumentando até que parou ao chegar na ordem. Que pasa? A madre superiora saiu para entender o que estava acontecendo mas não houve tempo. Ela foi jogada violentamente para o lado pelos soldados assim que abriu o portão de entrada e uma multidão deles invadiu o convento. Éramos aproximadamente 80 freiras que não gritavam, demonstrávamos nosso desespero através do olhar, pedindo desesperadamente por favor com os olhos para que não nos machucassem.
Os soldados se aproximaram de mim com duas fotos. Dónde están ellas?, eles perguntavam, onde estão elas? Ao que eu respondia movendo a cabeça negativamente em sinal de não sei, e eu realmente não sabia. Poucos minutos depois, um soldado apareceu do fundo, dos quartos que estavam desativados, carregando duas moças pelos cabelos. Elas vestiam calças, coisas de homem, e uma blusa vermelha com uma foice e um martelo. A madre superiora demonstrava a face desesperada, em busca de algo que pudesse ser feito, mas não havia nada a se fazer. Enquanto eles carregavam as moças desconhecidas para fora, elas gritavam:
- No se callen! Los fascistas están llevando nuestro paíz a la basura. Viva la revolución, vivan los nacionalistas! - Algo como, “Não se calem, os fascistas estão levando nosso país ao lixo. Viva a revolução, vivam os nacionalistas”.
Levaram as moças e nossa madre superiora. A segunda madre imediatamente assumiu seu posto e nos coordenou para que retomássemos nossas atividades. Nunca nos explicaram quem eram as moças ou porque elas estavam escondidas ali e nossa antiga madre jamais retornou. Pouco tempo depois tudo voltou ao normal. Os cavalos foram embora, e o silêncio retomou seu lugar.
Uma normalidade e um silêncio pacífico aparente, pois minha voz interior, após de ouvir os gritos das moças de vermelho, nunca mais se calou.
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